Não sei o que
não me irritava em tal personagem, se era o modo como gesticulava agressivamente, o tom alto de voz cuspindo saliva lá das entranhas, talvez fosse aquela sua mania de estar sempre a dizer que não era oito nem oitenta quando se via perfeitamente que tinha o ego bem lá em cima, nos oitenta, para esconder a sua insegurança. Aquele seu cabelo sempre tão penteadinho metia-me um nojo dócil, a unha comprida no dedo mindinho aterrorizava-me a ideia de que ele me tocasse, nem que fosse sem querer, à passagem de um ofício, do agrafador, ou de outra coisa qualquer. Chegava sempre uma hora atrasado, privilégios de quem já lá trabalhava há muito tempo, e dizia sempre um bom dia meio cantado, meio acriançado, meio convencido, para logo começar a mandar em toda a gente.
Lembrei-me também da camisa primorosamente engomada, e das calças, sempre cinzentas, bem vincadas, gravata não a usava que isso era coisa de políticos, dizia-o ele. Ora, sabendo eu que o tipo morava sozinho e fazendo ele publicidade de que fazia tudo lá em casa, ainda pensei em pagar-lhe para passar a minha roupa, que eu não sou nenhuma fada do lar e detesto coisas com vincos. Descobri entretanto que a personagem andava em bicos dos pés para arranjar uma companheira, queria-a simultaneamente boa na cama, católica, conservadora q.b., e que soubesse cozinhar manjares de arregalar o olho e a alma, passar a ferro não era preciso, que disso tratava ele, pois claro.
Um dia, tinha já toda a gente saído, incluindo eu, quando me lembrei que me faltava o modo vibratório e, qual gata apressada, lá fui buscar o telemóvel à minha secretária. Ouvi uns ruídos leves no corredor que dava para o gabinete do chefe e resolvi espreitar. Para surpresa minha, lá estava a tal personagem, no chão, olhos arregalados, calças nos tornozelos, um fiozinho de sangue a escorrer-lhe da boca e uma grande mancha vermelha lamacenta a toda a sua volta. Ao lado dele deitada,
quem diria?, a púdica da Beta da Contabilidade ainda a espernear...
Antes de chamar o 112, a polícia, e o chefe, felicíssima com o desaparecimento da besta, ainda me ocorreu pensar que isto era bem melhor que
Romeu e Julieta!
Etiquetas: fábulas da fábula