2008/10/14

Sara

Não deixo passar este dia que nos celebra a união e o encanto que sobra ainda de nós, até cada vez mais inflamado nos gestos e nas bocas que nos unem. O dia de tantos outros como nós mas nunca tão unos, nunca tão indivisíveis. Nunca tão fortes ao passar do tempo que apenas serve de sopro para avivar a chama e não de água sob a ponte que levará os mais arrojados sentimentos.
Não deixo passar o dia que nos contempla, namorados que somos embalados pela doce e estranha expectativa da vida que semeámos e que tarda muito em despontar. Não me permito esquecer o dia, enamorado tanto ainda que me atemoriza que o coração não aguente de cada vez que abres a porta e logo clamas o meu nome alegremente.
Este dia somos nós, e tantos outros nunca tanto como nós. Porque somos nós que este dia celebra e para além de nós nada mais importa.

2007/08/08

encosta-te a mim...

Uma das mais belas canções românticas que conheço, ao nível das melhores do Sérgio Godinho.
Para ouvir, e ouvir e tornar a ouvir!


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2007/05/16

Chasing Cars

Se me deitar na areia, ficas comigo e esqueces tudo o resto? Preciso de ti, da tua quentura doce. Quando estás à minha beira, até o cinzento brilha com matizes de fogo. As manhãs acordam bem-humoradas. Preciso de ti, da tua calmaria. Quando estás ao meu lado, a minha inquietude é lago tranquilo. As noites adormecem felizes.

Se me deitar na areia, ficas comigo e esqueces tudo o resto? Contigo, não fazer nada é aventura. Ficamos aqui a perseguir as nuvens em forma de carro que deslizam velozes no écran do olhar. Sentimos o perfume inconsciente um do outro. Somos dedos entrelaçados, pele arrepiada. Somos tu e eu, nós...

Jacky (14.05.2007)

Bill Stephens

Devaneio inspirado na canção Chasing Cars dos Snow Patrol, com letra aqui.

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2007/05/15

Rua de mim...

Não reconheço as pedras da calçada. Cada passo que dou é uma troca de perna ante perna. Sento-me no café e observo. As pessoas circulam, vazias, rugas de preocupação ilustram os rostos sérios. Não há risos.
Entendo. Coisas vãs são o mote do dia. E as coisas sérias não dizem nada a ninguém. Só os problemas, infelizmente. Perturbo-me. Perturba-me a frustração que me rodeia.

As pedras da calçada lá estão, quietas, alinhadas, encaixadas. Perturbo-me. Perturba-me que as pessoas que passam sobre elas sejam também como pedras. Já ninguém questiona nada. Morreram os filósofos. Não há diálogo.
Deixo-me ficar na esplanada. Sinto a brisa e reparo numa nuvem no céu. Penso que o tempo vai mudar. A conversa até está animada, mas eu estou completamente alienada. Os meus pensamentos ocupam demasiado espaço em mim. Ocasionalmente um ou outro assunto desperta a minha atenção e participo com uma chalaça, faço rir os outros.

Volto a minha atenção para aquela calçada e para as pedras que passam. Imagino agora que a calçada é feita de pessoas e que são pedras que andam sobre ela. E nada me perturba...

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2007/04/28

Medo do escuro

Ela não sabia em que raio de adulta se tinha tornado, uma mulher que tem medo do escuro é ridícula. Não se sabe ao certo como começou este medo do escuro, basicamente tinha medo desde sempre. Era um medo quadrado. Aliás, o seu medo era tal que já a tinha metido em situações muito caricatas.
Uma vez, em pleno Inverno, eram quase sete horas e preparava-se para sair do trabalho quando se apagaram as luzes todas ao mesmo tempo, incluindo as da rua. Gritou. Gritou como uma louca aprisionada numa camisa de forças e só parou quando uma das colegas, fumadora, se pôs ao pé dela de isqueiro na mão e lhe disse que não se preocupasse, que ia correr tudo bem. Durante uma semana teve de aguentar risadinhas à sua passagem, cochichos e piadinhas dos colegas: Ouve lá, aquilo foi um grito de dor ou de prazer?, ou então: Queres que te acenda a luz?
Pormenores à parte, sentia-se observada no escuro, como se lá estivesse alguém ou alguma coisa além do palpável. E que se desengane quem pensa que ela era supersticiosa, ou uma fanática religiosa qualquer, daquelas que acreditam em anjos e demónios. Não senhor. Havia algo a observá-la.
Naquele episódio do apagão, quando se encontrava a trabalhar, havia algo ou alguém naquela sala além dos colegas, algo que a tocou muito antes de a colega fumadora a iluminar com o isqueiro, algo que a arrepiou até à medula, lhe fez estremecer o corpo da cabeça aos pés, e lhe provocou um terror tal que a fez dar aquele grito ridículo.
Passaram dois ou três anos desde o apagão. Era o dia do seu aniversário. Tinham acendido as velas do bolo e cantavam-lhe os Parabéns. Depois da salva de palmas, um sopro e foi a escuridão total. Quando se acenderam as luzes, nem sinal dela. Ainda pensaram que era alguma brincadeira de mau gosto e chamaram por ela, procuraram debaixo da mesa e no resto da casa. Família e amigos estavam de tal maneira impressionados com aquele truque de mágica que não acreditaram no mais evidente, ela tinha desaparecido para sempre. Só ao fim de uma semana foram à polícia dar conta do seu desaparecimento. Obviamente, ninguém a encontrou, ninguém sabe ou alguma vez saberá qual o seu paradeiro... nem ela!

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2007/04/19

A narrativa da amorizade

A narrativa da amorizade

Quando era pequenina e vinha passar férias a Portugal, ficava sempre na minha Tatá. Tatá é o nome carinhoso em Francês para tia e esta é uma tia muito especial: é minha tia-avó materna. Íamos à praia todos os dias, para o Molhe, onde a Tatá tinha barraca. Ao fim de tarde, o Tonton ia lá ter. Depois voltávamos todos juntos, jantávamos e eu fazia uma corrida com o Tonton para ver quem comia a sopa mais depressa. Eu ganhava sempre. Na verdade, ele deixava-me ganhar. Gostava de saltar os quintais que ficavam por trás das casas ali na Constituição e ir até à casa da Mina brincar. Brincava com as formigas que saíam por uma frincha. Dava-lhes água para não terem tanto calor. Mal sabia, na altura, que as afogava com tanto zelo. Não gostava de laranjas, por isso, a Tatá dava-me tanjas e eu toda contente comia as laranjas todas sem pestanejar. Ia ao cabeleireiro e quando chegava a parte de pintar as unhas, eu também queria mas de vermelho! Na altura, também adorava sapatos vermelhos. Ela lá me convencia a pintar de rosa e outras vezes a minha teimosia levava a melhor…

O momento mais feliz do dia era quando me ia deitar. Se estivesse lá a Tia Isilda, ensinava-me o Pai Nosso em Português e lá adormecíamos as duas. Se não estivesse, a Tatá sentava-se na minha cama e contava-me uma história. Às vezes, inventava e no dia seguinte pedia-lhe a mesma. A Tatá já não se lembrava e eu dizia: - Ó Tatá, ontem não me contaste assim! A minha história favorita era de longe a carochinha que se punha à janela depois de encontrar uma moeda a varrer a cozinha e ouvia aqueles animais todos a gritarem muito alto. E coitado do João Ratão, morto, no panelão…

Mais tarde, já morava no Porto e fiquei a estudar no Carolina Michaelis que é perto da casa da Tatá. Uma vez por semana, ia lá almoçar mas já não fazia corridas com o Tonton. Às vezes, ligava-lhe antes de ir almoçar e dizia: - Ó Tatá, posso levar uma amiga minha para almoçar? - E ela dizia sempre que sim.

A Tatá teve sempre tempo e paciência para mim. Teceu a minha infância de palavras e de personagens maravilhosas. Os meus pais não tinham tempo para isso. A Tatá não teve filhos mas é como se fosse a avó que não tive…

A Tatá tem agora 86 anos e está muito doente no hospital. Tenho ido lá quase todos os dias vê-la, dizer-lhe que gosto dela, porque daqui a uns dias, quando ela partir, também partirá essa parte da minha infância tecida de palavras que foi muito feliz…

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2007/04/13

Odiozinhos de estimação

Não sei o que não me irritava em tal personagem, se era o modo como gesticulava agressivamente, o tom alto de voz cuspindo saliva lá das entranhas, talvez fosse aquela sua mania de estar sempre a dizer que não era oito nem oitenta quando se via perfeitamente que tinha o ego bem lá em cima, nos oitenta, para esconder a sua insegurança. Aquele seu cabelo sempre tão penteadinho metia-me um nojo dócil, a unha comprida no dedo mindinho aterrorizava-me a ideia de que ele me tocasse, nem que fosse sem querer, à passagem de um ofício, do agrafador, ou de outra coisa qualquer. Chegava sempre uma hora atrasado, privilégios de quem já lá trabalhava há muito tempo, e dizia sempre um bom dia meio cantado, meio acriançado, meio convencido, para logo começar a mandar em toda a gente.
Lembrei-me também da camisa primorosamente engomada, e das calças, sempre cinzentas, bem vincadas, gravata não a usava que isso era coisa de políticos, dizia-o ele. Ora, sabendo eu que o tipo morava sozinho e fazendo ele publicidade de que fazia tudo lá em casa, ainda pensei em pagar-lhe para passar a minha roupa, que eu não sou nenhuma fada do lar e detesto coisas com vincos. Descobri entretanto que a personagem andava em bicos dos pés para arranjar uma companheira, queria-a simultaneamente boa na cama, católica, conservadora q.b., e que soubesse cozinhar manjares de arregalar o olho e a alma, passar a ferro não era preciso, que disso tratava ele, pois claro.
Um dia, tinha já toda a gente saído, incluindo eu, quando me lembrei que me faltava o modo vibratório e, qual gata apressada, lá fui buscar o telemóvel à minha secretária. Ouvi uns ruídos leves no corredor que dava para o gabinete do chefe e resolvi espreitar. Para surpresa minha, lá estava a tal personagem, no chão, olhos arregalados, calças nos tornozelos, um fiozinho de sangue a escorrer-lhe da boca e uma grande mancha vermelha lamacenta a toda a sua volta. Ao lado dele deitada, quem diria?, a púdica da Beta da Contabilidade ainda a espernear...
Antes de chamar o 112, a polícia, e o chefe, felicíssima com o desaparecimento da besta, ainda me ocorreu pensar que isto era bem melhor que Romeu e Julieta!

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