2007/05/15

Rua de mim...

Não reconheço as pedras da calçada. Cada passo que dou é uma troca de perna ante perna. Sento-me no café e observo. As pessoas circulam, vazias, rugas de preocupação ilustram os rostos sérios. Não há risos.
Entendo. Coisas vãs são o mote do dia. E as coisas sérias não dizem nada a ninguém. Só os problemas, infelizmente. Perturbo-me. Perturba-me a frustração que me rodeia.

As pedras da calçada lá estão, quietas, alinhadas, encaixadas. Perturbo-me. Perturba-me que as pessoas que passam sobre elas sejam também como pedras. Já ninguém questiona nada. Morreram os filósofos. Não há diálogo.
Deixo-me ficar na esplanada. Sinto a brisa e reparo numa nuvem no céu. Penso que o tempo vai mudar. A conversa até está animada, mas eu estou completamente alienada. Os meus pensamentos ocupam demasiado espaço em mim. Ocasionalmente um ou outro assunto desperta a minha atenção e participo com uma chalaça, faço rir os outros.

Volto a minha atenção para aquela calçada e para as pedras que passam. Imagino agora que a calçada é feita de pessoas e que são pedras que andam sobre ela. E nada me perturba...

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6 Comments:

Blogger Bruno A. said...

texto delicioso. aqui fica a versão, um dia cantada, dos USA:

"everybody's talking at me, I can't hear a word they say, Only the ecos of my mind...
Willie Nelson

16 Maio, 2007 11:28  
Blogger Fábula said...

BRUNO, obrigada... =)

17 Maio, 2007 23:38  
Blogger Mo said...

concordo, acredita que às vezes me sinto assim mesmo: rodeada de gente de pedra... que nem para calçada serve

11 Junho, 2007 20:57  
Blogger Mo said...

mais "bravo"?

11 Junho, 2007 20:57  
Blogger Fábula said...

MO, o problema é que de vez em quando eu também sou uma pedra da calçada, mas só de vez em quando m4esmo. ;)

12 Junho, 2007 18:11  
Blogger Versos na fornalha said...

Calçada portuguesa

Ruas e calçadas, molhadas

Vidas, lágrimas derramadas



Gritos, de peito meu



flores tristes, abortadas

calçadas não enfeitadas

Dores, de quem sofreu



Almas doridas, pisadas

pedras duras, marteladas

acasos, o fadista gemeu



Mas Deus se condoeu...



De trovoadas, lágrimas secou

Trovões, gritos amordaçou

corações esfarrapados coseu



A vida continuou...



Calçadas, vidas marteladas

Pedras polidas ordenadas

Dores de quem as pisou



Sonho que se perdeu,..

26 Dezembro, 2007 02:10  

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